terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Carta VII / VIII - Amar-te em Separação

 Amava-te de mais, saberás o que isso é? como te amo agora com o excesso que é meu. Assim me parece perdido todo o tempo em que não penso em ti, em que sobretudo me não apareces no teu fulgor encantamento. E sinto um estranho remorso aí, uma perda, um tempo inútil em que não estás comigo. Vem. Vem e demora-te para dares algum sentido à vida que se me esgotou. Fica. E traz contigo o teu deslumbramento  que me dobra de humildade, como gostaria de poder dizer-te. Dizer-te o que me és e não sei.
 ...
É por isso que nunca nos amámos em total e clara revelação, penso agora. Pelo menos não me lembro. Sei de cor o teu corpo, mas justamente de cor e não quando profundamente o amei. Mas quando foi que eu mais te amei? e de súbito lembro-me de que foi quando te perdi, quando separaste do meu o teu destino.
Vergílio Ferreira 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Carta VI - Espera

Há quantos séculos nós não amávamos assim e eu era tão infeliz. Tinha agora um medo imenso de te perder, de que se furtasse ao meu apelo um só cabelo de ti. Há tanto que te esperava, porque só hoje vieste?
Vergílio Ferreira 

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Procura

Estava tudo negro. Um dia de trevas que me assolava e que parecia não terminar. Sentado a um canto, na escuridão do meu quarto, pensava em ti. Realidade não existente num mundo a desvanecer. Apenas existias dentro de mim, iluminando algum canto obscuro do meu ser. O desespero tomou conta de mim. De mãos na cabeça, senti duas lágrimas rolarem pelo meu rosto contrito. Levantei-me a custo segurando-me ao armário, o meu refúgio predilecto, coloquei-me de pé e espreitei pela janela. Lá fora um raio de luz coava-se através de nuvens negras. Resolvi sair. Iria ser uma saída infrutífera. A minha longa procura de ti, que apenas existes dentro de mim, mas vou sair na mesma a procurar...condenado ao desespero por não te ter. Louco. Chamem-me louco, pois assim será mais fácil atravessar as ruas cheias de gente banal. Olho para outros seres femininos na esperança de seres tu, mas não és...é apenas mais alguém nas suas banalidades convenientes. Olham-me, e ficam parados. Talvez hipnotizados pelo meu olhar vazio. Ou talvez, em algum canto interno das suas banalidades, se revejam naquele vazio...."Por favor...alguém!!!" - Grito para dentro de mim mesmo. "Tu não existes!!!" - Continuo revoltado. " Vou desistir!!! Por favor alguém me ajude!!! Doi tanto!!" - Mas ninguém ajudou...não veio ninguém...e de ti nem sinal. Acabei por desistir. Vencido pelo vazio, misturo-me com a multidão. Os anos passam, a vida toma o rumo normal que qualquer rapaz da minha idade consideraria tomar. Mas o vazio continua a aumentar. Tento esquecê-lo...Vou ser normal...e tomo todas as atitudes esperadas...
Agora apareces...Tu não existias!!! Como apareces assim e tornas o meu mundo o teu?? Eu era vazio, eu já não acreditava em nada! Estava rendido à banalidade! Mas quando te vi naquele quadro comigo, no meio do bosque... Sempre procurei por ti e só apareces agora??? Truque de um destino cruel; sim nunca acreditei no destino, mas ele tem de existir e deve ser muito cruel...O meu muro está a ruir, todas as minhas construções estão a ruir...naquele bosque...


(escrito por ele para mim)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Carta VI - Sonho real

Foi um grito horrível, não, não, fiquei paralisado de susto humilde. E vi um raio de luz ao alto da janela, a minha mão imóvel no teu lugar vazio da cama. Desvairado procurei-te de cima a baixo, o teu lugar deserto e frio. Acendi a luz, saltei da cama, disse o teu nome aos berros, onde estás? Ouve. Turvo ainda de sono venho ao corredor - Onde estás? E então reparei por fim que estava desperto, palpava-me, esfregava os olhos. Desperto. Deitei-me de novo, uma convulsão de choro que não vinha e em que eu repousasse. Sim, vou sossegar. Talvez tenha sorte e te não lembre mais até à noite. Não venhas mais, não venhas ao menos tão cedo. Vou levantar-me, vou arranjar o pequeno almoço e não te vou convidar. Vê se me esqueces. Por algum tempo. Para um pouco eu serenar.
Vergílio Ferreira 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Curse

And then she came. Hot and burning like the face of the moon. Cursing his heart for the eternity.