sábado, 23 de março de 2013

Aprisionada

Não peças para sair deste bosque. Ficarás aqui, quer queiras quer não. Eu sou um espírito de uma ordem pouco comum. Fixa bem, até mesmo o Verão, onde eu paro, fica imóvel. E eu amo-te. Vem comigo; dar-te-ei fadas para te servirem; e elas irão procurar-te jóias ao fundo do abismo, e cantarão enquanto tu dormirás sobre um leito de flores prensadas. E eu purificarei tão bem a tua grosseira mortalidade que tu brilharás como um espírito do ar.

William Shakespeare

quarta-feira, 20 de março de 2013

Aprisionado

Lembro-me de ela esperar por mim no nosso quarto depois de terminadas as celebrações do casamento: toda vestida de branco, com o cabelo solto e espalhado nas almofadas e na colcha, a roçar o chão. Aproximei-me devagar da cama, receoso de a acordar, e uma terrível ternura invadiu todo o meu corpo. O que mais desejava acima de tudo era deitar-me ao lado dela, aspirar o seu perfume, o cheiro a frutos silvestres e a lilás dos seus cabelos longos. Por breves segundos, tudo foi quietude, mas depois ela abriu os olhos. Vi o meu rosto como que reflectido na bola de cristal de uma feiticeira, uma pequena cabeça de alfinete nas suas pupilas. As suas mãos frias e pálidas envolveram-me o pescoço. Senti que as minhas reagiam e quando os lábios dela tocaram os meus, deixei-me submergir nela, as minhas mãos cheias dos seus cabelos... Então assim, quando ela fechou os olhos consegui fugir ao seu feitiço. Entreabriu os olhos e a única coisa que pude fazer para evitar perder-me de novo nos seus abismos foi agarrar-me ao que restava da minha sanidade mental. Amaldiçoei-a. Amaldiçoei a sua pele branca, os seus olhos abissais e o seu cabelo, que me enlouqueceram. 
Devia ter morrido naquele momento: nenhum homem foi feito para conseguir suportar, como eu e só eu, o êxtase e o tormento dela.