Foi um grito horrível, não, não, fiquei paralisado de susto humilde. E vi um raio de luz ao alto da janela, a minha mão imóvel no teu lugar vazio da cama. Desvairado procurei-te de cima a baixo, o teu lugar deserto e frio. Acendi a luz, saltei da cama, disse o teu nome aos berros, onde estás? Ouve. Turvo ainda de sono venho ao corredor - Onde estás? E então reparei por fim que estava desperto, palpava-me, esfregava os olhos. Desperto. Deitei-me de novo, uma convulsão de choro que não vinha e em que eu repousasse. Sim, vou sossegar. Talvez tenha sorte e te não lembre mais até à noite. Não venhas mais, não venhas ao menos tão cedo. Vou levantar-me, vou arranjar o pequeno almoço e não te vou convidar. Vê se me esqueces. Por algum tempo. Para um pouco eu serenar.
Vergílio Ferreira
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