domingo, 24 de abril de 2011

Momento 2

Estava sentado, vestia as mesmas roupas do costume. Nada o diferenciava dos seus dias anteriores. O mesmo cheiro, o mesmo sorriso, os mesmos movimentos... agora que olho bem noto algo diferente. Aquele olhar, estava intenso! Profundo como a Natureza. Tão cativante.
O seu telemóvel toca, mas não o atende logo. Está sereno e concentrado no que fazia anteriormente. Finalmente atendeu. Uma conversa não mais que cinco minutos. Retoma ao que anteriormente fazia. Com a mesma concentração, a mesma atenção. Completamente focado. O tempo vai passando... mantêm-se  na mesma posição. Uma posição que parece cómoda, passo a descrever: encontra-se meio inclinado para a sua esquerda, encostado a duas almofadas encarnadas quase deitado, de pernas entrelaçadas com os dois pés (calçado) apoiados numa pequena mesa de madeira já um pouco gasta. De mãos ocupadas, com uma expressão séria e rígida.
A minha presença não lhe faz a mínima diferença. A concentração é tal que é como se eu cá nem estivesse. Mas devo confessar que não me faz a mínima importância. Gosto do seu silêncio, da sua concentração. Traz-me um sentimento de serenidade. Se bem que de vez em quando desvia o olhar na minha direcção para verificar o que ando a fazer. Por vezes comenta comigo acerca do que está a fazer. Sinto-me interessada! Um sorriso escapa-lhe em certas alturas e vai direccionado a mim. Agora sinto-me contente.
Olho para ele durante uns breves segundos, parece não notar que lhe olho. Vou fazer outra confissão: bem poderia estar aqui o tempo todo a observá-lo que não me importaria. Gosto de vê-lo! Faz-me sentir ocupada e preenchida. E o melhor é que ele nem se importa. Lembrando que ele sempre gostou de ser o centro das minhas atenções.

Está a anoitecer, agora só resta a luz da televisão para o iluminar. Distrai-me a ver o que ele fazia... oiço-o proferir algumas asneiras, dar alguns sinais de vida. Pois a posição é a mesma, se bem que agora inclinado para a sua direita. Foi acender a luz da sala, e agora que se sentou de novo estico-lhe o braço para ter contacto físico com ele e obter uma resposta sua. E conseguida! "Bingo!"- sorrindo, penso.
Voltei a distrair-me com o que lhe está a ocupar o tempo. Não muito interessante, não muito divertido e não muito convidativo.

São dezoito horas e quarenta e sete minutos da tarde, uma bela tarde. Não muito calorosa, não muito divertida. Mas completamente bem passada!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Cópula


"Tu recuas á dureza da minha agressividade, espumosos os cabelos louros, amarrato-os nas minhas mãos e a tua boca. Babujada ensopada nos sucos da nossa fertilidade, humedecemos na profunda fermentação da vida."


Vergílio Ferreira, Para Sempre

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Amor livre

Entraste dentro do seu coração de rompante, sem teres batido á porta. Instalas-te o teu todo e, ali ficaste. E ela? Ela não contrariou ou sequer emitiu qualquer som. Apenas deixou-se ficar, deixou-se levar.. Permaneceu!

Abriste os teus braços para acolher a sua alma, ela reciou e encolheu-se. E tu de teu jeito verdadeiro sussuras-te ao seu coração para que não tivesse medo. Ela, de seu jeito amedontrado, recolheu essas palavras e guardou-as no pensamento. Desde então, todos os dias o teu sorriso apontava para ela e o seu coração derretia ao vê-lo. Todos os dias os teus olhos a seguiam e o seu corpo parava por instantes. Todos os dias que os teus lábios sussurravam aos seus ouvidos, o seu coração vagarosamente ardia.


Decoraste o coração dela de sentimentos, juras e promessas. E deitaste ao lixo o sofrimento, a mágoa, a dor, o desespero. Ver-te e ouvir-te era como um banquete para o seu coração.
E aí ela pensava:"Não deveria amar-te." , mas o inesperado tinha entrado na sua vida. Sem intenção, sem contrariação, com aceitação: fechou os olhos, abriu o seu coração, entregou-te a alma e assim, deixou-se levar.


Além de teres decorado o seu coração, pintas-te também as paredes de mil e umas cores. E cá andava ela nesta dança de sentimentos. Bailava secretamente com todo o fervor e afinco.
Ela queria pisar o mesmo chão que pisavas, dar os mesmos passos que davas, amar o que tu amavas, observar o que tu observavas.
E pensava assustada:" O que me fizeste??". E então mais uma vez, deixou-se hipnotizar, sentindo cada vez mais a grandeza deste sentimento.

 
Assim uniu-se a ti e, formaram um só. Uma particula cheia de força... cheia de amor!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Êxtase

Como os teus dedos me entorpecem, a tua respiração cai sobre mim como geada. O teu pulso embala-me os ouvidos... sinto-me imersa dos pés á cabeça. Deliciosamente!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Destino

"È por isso que nunca nos amámos em total e clara revelação, penso agora. Pelo menos não me lembro. Sei de cor o teu corpo, mas justamente de cor e não quanto profundamente o amei. Mas quando foi que eu mais te amei?? E de súbito lembro-me de que foi quando te perdi, quando separas-te do meu, o teu destino."


"Cartas A Sandra" , Vergílio Ferreira