Devolve o meu apaixonado, e quando ele morrer, corte-o em pequenas estrelas. E ele deixará a face do céu tão bela que o mundo inteiro se apaixonará pela noite.
sábado, 20 de julho de 2013
sábado, 23 de março de 2013
Aprisionada
Não peças para sair deste bosque. Ficarás aqui, quer queiras quer não. Eu sou um espírito de uma ordem pouco comum. Fixa bem, até mesmo o Verão, onde eu paro, fica imóvel. E eu amo-te. Vem comigo; dar-te-ei fadas para te servirem; e elas irão procurar-te jóias ao fundo do abismo, e cantarão enquanto tu dormirás sobre um leito de flores prensadas. E eu purificarei tão bem a tua grosseira mortalidade que tu brilharás como um espírito do ar.
William Shakespeare
quarta-feira, 20 de março de 2013
Aprisionado
Lembro-me de ela esperar por mim no nosso quarto depois de terminadas as celebrações do casamento: toda vestida de branco, com o cabelo solto e espalhado nas almofadas e na colcha, a roçar o chão. Aproximei-me devagar da cama, receoso de a acordar, e uma terrível ternura invadiu todo o meu corpo. O que mais desejava acima de tudo era deitar-me ao lado dela, aspirar o seu perfume, o cheiro a frutos silvestres e a lilás dos seus cabelos longos. Por breves segundos, tudo foi quietude, mas depois ela abriu os olhos. Vi o meu rosto como que reflectido na bola de cristal de uma feiticeira, uma pequena cabeça de alfinete nas suas pupilas. As suas mãos frias e pálidas envolveram-me o pescoço. Senti que as minhas reagiam e quando os lábios dela tocaram os meus, deixei-me submergir nela, as minhas mãos cheias dos seus cabelos... Então assim, quando ela fechou os olhos consegui fugir ao seu feitiço. Entreabriu os olhos e a única coisa que pude fazer para evitar perder-me de novo nos seus abismos foi agarrar-me ao que restava da minha sanidade mental. Amaldiçoei-a. Amaldiçoei a sua pele branca, os seus olhos abissais e o seu cabelo, que me enlouqueceram.
Devia ter morrido naquele momento: nenhum homem foi feito para conseguir suportar, como eu e só eu, o êxtase e o tormento dela.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Ligações
O amor mascara-se tão bem que nem o nosso reconhecemos. Esconde-se atrás de defesas e desencantos, interesses e projecções, modelos e ideais, ficando por vezes encoberto, desfigurado, irreconhecível. Mas a capacidade de nos darmos um ao outro está lá, disponível e ávida, aguardando apenas que um de nós a saiba desencerrar. Na verdade, nem é preciso muito: basta uma palavra, um eco, um simples gesto que nos aprisione, para darmos connosco a desvalorizar todos os obstáculos e a entregarmo-nos cegamente um ao outro. De um momento para o outro começamos a querer-nos bem, elegendo-o sobre todas os outros, e, quando damos por nós, estamos presos um ao outro por laços tão apertados que, nem mesmo que quiséssemos, não saberíamos desatar. Reagimos emotivamente e impulsivamente a cada estímulo, sem passar pelo filtro da razão e da experiência, revelando-se frágil como uma vara, flectindo à menor aragem.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
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