Lembro-me de ela esperar por mim no nosso quarto depois de terminadas as celebrações do casamento: toda vestida de branco, com o cabelo solto e espalhado nas almofadas e na colcha, a roçar o chão. Aproximei-me devagar da cama, receoso de a acordar, e uma terrível ternura invadiu todo o meu corpo. O que mais desejava acima de tudo era deitar-me ao lado dela, aspirar o seu perfume, o cheiro a frutos silvestres e a lilás dos seus cabelos longos. Por breves segundos, tudo foi quietude, mas depois ela abriu os olhos. Vi o meu rosto como que reflectido na bola de cristal de uma feiticeira, uma pequena cabeça de alfinete nas suas pupilas. As suas mãos frias e pálidas envolveram-me o pescoço. Senti que as minhas reagiam e quando os lábios dela tocaram os meus, deixei-me submergir nela, as minhas mãos cheias dos seus cabelos... Então assim, quando ela fechou os olhos consegui fugir ao seu feitiço. Entreabriu os olhos e a única coisa que pude fazer para evitar perder-me de novo nos seus abismos foi agarrar-me ao que restava da minha sanidade mental. Amaldiçoei-a. Amaldiçoei a sua pele branca, os seus olhos abissais e o seu cabelo, que me enlouqueceram.
Devia ter morrido naquele momento: nenhum homem foi feito para conseguir suportar, como eu e só eu, o êxtase e o tormento dela.
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