segunda-feira, 6 de abril de 2026

Maculação

 Onde a luz mal ousava entrar, estava ela cuja beleza era tão delicada quanto desprotegida. Não possuía riquezas, apenas o seu corpo frágil e uma inocência que o mundo parecia pronto a ferir.
Naquela tarde silenciosa, ajoelhada, ela ergueu os olhos com uma expressão de súplica muda.
Não pedia ouro nem conforto, mas algo mais simples e mais essencial: a protecção!
Sabia, no íntimo, que o olhar dos homens podia ser pesado, capaz de transformar pureza em julgamento, inocência em vulnerabilidade.

Foi então que o ar se alterou.

Uma luz suave desceu como um sopro vindo de outro mundo, e com ela surgiu uma figura envolta em serenidade. Um anjo, enviado do Céu, pairava acima dela, trazendo nas mãos um vestido branco, leve como a bruma da manhã. As suas vestes eram ricas, mas o gesto era simples: profundamente humano na sua ternura.
Sem palavras, o anjo inclinou-se e deixou cair o vestido sobre ela. O vestido deslizou suavemente, cobrindo-lhe o corpo com uma dignidade que não era apenas física, mas espiritual. Não seria apenas para esconder mas sim para resguardar, para afirmar que a sua essência não pertencia ao olhar alheio, mas a algo maior, intocável.

Ela fechou os olhos por um instante, sentindo não apenas o calor do tecido, mas uma paz que a envolvia por completo. Naquele momento, compreendeu que não estava sozinha, que havia um cuidado invisível que a acompanhava mesmo nos lugares mais esquecidos.

Quando a luz se dissipou e o anjo regressou ao silêncio do Céu, o espaço voltou a ser o mesmo...frio, simples, humilde. Mas ela já não era. Vestida não só do tecido branco, mas de protecção e dignidade, levantou-se com uma nova força, como quem carrega dentro de si a certeza de que a pureza, quando guardada, nunca pode ser verdadeiramente tocada pelo mundo.

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