quarta-feira, 25 de março de 2026

23/03

Ela nunca pensou que o tempo pudesse ser tão silencioso.

Passaram mais de dez anos desde que os caminhos deles se separaram. Dez anos feitos de vidas diferentes, cidades diferentes, rotinas que já não se cruzavam nem por acaso. O amor que um dia existiu entre eles não acabou com um estrondo — dissipou-se devagar, como um perfume esquecido no ar.

Ela mudou-se recentemente para aquele bairro. Ruas novas, cafés por descobrir, vizinhos ainda desconhecidos. Havia algo de reconfortante naquele anonimato — como se recomeçar fosse mais fácil quando ninguém sabia quem ela tinha sido.

Numa tarde comum, dessas sem história, saiu para caminhar. O céu estava limpo, e o vento leve fazia dançar os seus cabelos como nos velhos tempos — tempos que já não visitava com frequência.

Parou na passadeira.

Um carro aproximava-se e abrandou. O gesto simples de cortesia — parar para a deixar passar — pareceu-lhe quase automático. Mas quando levantou o olhar para agradecer, o mundo suspendeu-se.

Era ele.

Os traços talvez um pouco mais maduros, o olhar o mesmo. As mãos no volante, firmes, familiares. O tempo tinha passado, mas havia coisas que não se apagam.

O coração dela disparou como se aqueles dez anos nunca tivessem existido. Um turbilhão de memórias atravessou-a num instante — risos, despedidas, silêncios, promessas que nunca chegaram a cumprir-se.

Ficou imóvel por um segundo que pareceu eterno.

Ele olhava em frente, tranquilo, alheio ao pequeno milagre que acabara de acontecer. Não a reconheceu. Para ele, ela era apenas mais uma desconhecida a atravessar a rua.

Ela sorriu — um sorriso doce, quase imperceptível, carregado de tudo o que já tinham sido.

E atravessou.

Cada passo parecia pesado e leve ao mesmo tempo. Quando chegou ao outro lado, não olhou para trás. Não precisava. Algumas histórias não são feitas para recomeçar — apenas para existir, intactas, num lugar onde o tempo não as pode tocar.

O carro seguiu.

E ela também.

Mas naquele breve instante, no meio de uma rua qualquer, duas vidas que já não se pertenciam tocaram-se de novo — sem saber, sem querer, sem voltar.

E talvez tenha sido perfeito assim.

1 comentário:

  1. Essas palavras são para mim? Além de de teres um nome que significa pureza, és docemente aprazível ao olhar. Vi te no outro dia...passeavas com um vestido da cor do céu e olhaste para mim por segundos e sorriste por educação e delicadeza sem saberes quem eu sou e que te sigo...

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