Ele podia conhecer os grandes mistérios da vida - mas de amor sabia tanto quanto eu. E tinha de pagar um preço: a iniciativa. Porque a mulher (eu) paga o preço mais alto: a entrega. Ficámos de mãos dadas por um longo tempo. Eu lia nos olhos dele os medos ancestrais que o verdadeiro amor coloca provas a serem vencidas. Eu lia a lembrança da rejeição, o longo tempo que passámos separados, os anos passados em busca de um mundo onde estas coisas não aconteciam. Eu queria dizer que «sim», que ele seria bem-vindo em mim. Eu queria dizer o quanto o amava, o quanto o desejava naquele momento. Assisti como se fosse um sonho, à sua luta interior. Vi que tinha diante dele o meu «não», o medo de me perder, as palavras duras que ouviu em momentos da sua vida - porque todos nós passamos por isso e acumulamos cicatrizes. (...) Agarrara-me os cabelos e beijava-me. Eu também o agarrei pelos cabelos, o abracei com toda a força, mordi os seus lábios, senti a sua língua dentro da minha boca. Era um beijo pelo qual tinha esperado muito - que tinha nascido junto aos rios da nossa infância, quando ainda não compreendíamos o significado do amor. Um beijo que ficou suspenso no ar quando crescemos, que viajou pelo mundo através da lembrança, que ficou escondido atrás de um monte de livros de estudo para um emprego público. Um beijo que se perdeu tantas vezes e que agora tinha sido encontrado. Naquele minuto de beijo, estavam anos de buscas, de desilusões, de sonhos impossíveis. Naquele minuto de beijo estava o resumo da minha vida, da vida dele. Naquele minuto de beijo estavam todos os momentos de alegria que vivi.
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